História
de amor, de fé e de esperança
Devidamente autorizado pela personagem principal,conto aos leitores
a seguinte e verdadeira história de amor, de fé
e de esperança.
No ano de 1940, na festa de São Sebastião, Maira
conheceu Fernando e naquele mesmo instante nascia entre eles um
imensurável e eterno amor.
Dois meses após, novo encontro entre eles foi possível
e um disse ao outro: "Vamos nos casar".
No ano seguinte, na imponente Igreja matriz de São Sebastião,
diante de Deus, na presença do celebrante, sob a aprovação
dos padrinhos e alegria dos parentes e amigos comuns, o sacramento
do matrimônio selava o amor dos dois, que perduraria pela
vida toda.
O tempo passou, as dificuldades foram enfrentadas e superadas,
sempre a dois, e vieram os filhos, seis nos primeiros vinte anos
de união estável, perene como a relva e sempre radiante
como o sol das manhãs de primavera.
Nessa ocasião, Maria contraiu uma doença grave,
causadora de preconceitos e na mais das vezes fatal, razão
por que foi compelida a permanecer por sete meses em um sanatório
para tuberculosos, fora desta terra, afastada de Fernando e dos
filhos, mas, como ela própria diz: "sempre perto de
Deus, o Pai que não abandona e dá coragem".
Obteve alta médica e retornou ao seio da família,
onde foi carinhosa e festejadamente recebida por todos, em especial
por Fernando que, dia após dia, aguardava ansioso o regresso
da esposa amada ao lar.
Mulher virtuosa e profundamente religiosa, dirigiu-se ao Padre,
seu diretor espiritual na época, e com ele travou o seguinte
diálogo: "Estou preocupada com a doença que
ainda não foi completamente embora, razão por que
temo ficar grávida outras vezes e, com isso, comprometer
a saúde dos filhos que possam vir. Devo, padre, usar a
pílula anticoncepcional? - Respondeu-lhe o sacerdote: -
você pode, contudo, a partir daí não mais
poderá comungar, pois esse não é um método
que a Igreja autoriza para ser usado na limitação
de filhos".
Maria decidiu abandonar a idéia do contraceptivo para continuar
comungando pela vida toda o Corpo e o Sangue de Cristo, sempre
fiel ao ideário: "Quem come a minha carne e bebe o
meu sangue tem a vida eterna". (Jo 6, 54-55).
No fluir dos anos seguintes Maria e Fernando receberam das mãos
de Deus mais quatro filhos, completando, assim, o número
de dez, todos saudáveis, bons e afáveis, os quais
cresciam em sabedoria e graça e buscavam descobrir a vocação
profissional que pudesse ensejar-lhes a realização
pessoal no mundo do trabalho. Sempre foram laboriosos, obedientes
e muito carinhosos com os pais.
Alguns anos depois, em lamentável acidente de carros, um
dos filhos do casal morreu e, no momento em que, sob forte emoção,
o corpo inerte estava sendo velado, Maria disse a uma pessoa que
estava ao seu lado e derramava lágrimas de sentimento:
"Embora triste, eu não posso chorar, pois no dia em
que Deus nos deu esse menino tão bom sorrimos muito e somente
foi alegria. Como posso chorar agora quando ele volta para os
braços de Deus, de onde veio? Eu não tenho esse
direito de chorar!". A comoção foi geral.
O tempo que não pára, não apita na curva
e nem espera ninguém, aparentemente, passou célebre
como a nuvem que o vento dissipa em poucos minutos.
Alguns anos depois, outro filho do casal, tão bom quanto
o primeiro, vitimado por outro lamentável acidente de veículos,
também morreu. Tristeza, sim. Desespero e falta de fé,
jamais.
Além dessa via sacra de dor, em 2002, no Dia dos Namorados,
Maria e Fernando combinaram comemorar juntos, logo mais à
noite, sessenta anos de casados, mas o destino escreveu diferente
no livro da vida e, às 16:30 horas, daquele mesmo dia,
Fernando morreu, deixando no mundo o registro indelével
das suas boas obras, muitas lembranças admiráveis
e abundantes exemplos de fé. E, no coração
de Maria, além da certeza de que fora profundamente amada
por ele, uma imensa saudade que não morre jamais.
Poucos meses depois, outro filho deixava esta vida, por não
conseguir vencer a doença grave de que fora acometido.
Tão bom quanto os dois que o precederam no Céu,
também deixou no coração de Maria e de todos
nós lágrimas de saudade, sentimento que, na visão
do poeta Bastos Tigre, "É palavra doce / que traduz
tanto amargor / saudade côo se fosse o espinho cheirando
a flor".
Maria, que também é dos Santos, vem carregando,
com muita coragem, inabalável fé e muita determinação,
esse fardo que o mundo coloca em seus ombros e, hoje, cercada
do carinho dos filhos e netos, do respeito e do apreço
dos parentes e, em especial, da afeição de toda
a comunidade areadense, ela, que é "dos Santos na
terra", com certeza, integrará a comunhão dos
Santos do Céu, ocasião em que reencontrará
Fernando, os filhos Celino, Homero e Célio, todos de saudosa
memória, e, ainda, as demais pessoas de sua alta estima
e admiração, pois ela própria ensina assim:
"Eu nunca digo que os perdi, pois perdidas são as
pessoas que a gente não sabe onde estão. Eu sei
que eles estão lá".
Bons exemplos como esse de Maria, confesso: jamais testemunhei
em toda a minha vida.
Outro dia, o que digo para terminar este conto extraído
da vida real, Maria exibiu-me o expressivo e lindo poema que ela
própria escreveu e que diz assim:
LÁGRIMA DE SAUDADE
(De Maria Borges dos Santos para Fernandinho)
Vinte de Janeiro de 1940,
Dia de São Sebastião,
Conheci o verdadeiro amor
E a minha grande paixão.
Dois
meses após
Voltamos a conversar,
Nessa conversa combinamos:
Vamos nos casar.
Passado
um ano
Na frente do altar,
Prometemos fidelidade
Até a morte nos separar.
Sessenta
anos depois,
No Dia dos Namorados,
Íamos comemorar,
Mas às quatro e meia da tarde
A morte veio nos separar.
Hoje
sé resta saudade
E vontade de chorar,
Mas tenho fé em Deus
Que no Céu vamos nos encontrar.
Eu seria capaz de trocar o tesouro que eu pudesse ter por uma
migalha fa fé dessa santa mulher.
João Pedro Palmieri - Advogado, membro titular vitalício
da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas,
fiel amigo e admirador de Maria, essa mulher de tantas virtudes
e que serviu de inspiração para esses escritos.